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2006年2月 Breves Memórias de um Reformado IIBreves Memórias de um Reformado
Não Aposentado
2ª Parte - Liceu e Universidade
Terminados os quatro anos de escolaridade primária abrem-se novos horizontes na minha aprendizagem, ao enfrentar a responsabilidade de um curso Liceal agora um pouco mais independente da restrita tutela dos pais.
Assim, no ano de 1950, e com a idade de 11 anos, rumo para a cidade do Porto (a grande cidade) onde a família possui uma moradia que servia de residência à geração de estudantes de todo o agregado familiar.
Por essa casa foram passando meus irmãos e primos mais velhos que fundaram uma República de Estudantes com regras próprias e praxes académicas muito peculiares, que foram passando o testemunho para os mais jovens.
Claro que os pais controlavam discretamente à distância a gerência desta República Autónoma e confiaram as lides domésticas a uma governanta, Senhora Laurinda, mulher de meia idade com carácter e modos de um mal encarado sargento do exército, mas boa e paciente mulher.
Nesse ano de 1950 residiam lá seis elementos; dois primos universitários, mais meu irmão, minha irmã e outros dois primos todos alunos de diversos anos do Liceal.
Eu passei a ser o sétimo elemento, que segundo a praxe, durante a vigência do primeiro ano seria considerado «caloiro», e como tal na República, não teria os mesmos direitos de cidadania dos restantes que já eram veteranos.
O grande dia chegou e de acordo com normas estabelecidas meu pai deixou-me em frente ao portão de casa e partiu, ficando eu com uma pequena mala na mão, meio receoso e desconfiado.
No interior, em um pátio de acesso à casa, os residentes encontrvam-se perfilados em duas alas e eu teria de passar pelo meio dessa guarda de honra, o mais ligeiro possivel, pois eles iam molhar a sopa no meu esqueleto com sopapos e caneladas.
E assim foi a recepção ao caloiro com todas as honras da praxe, para iniciar, solenemente, a minha formação como estudante e como homem.
Corajosamente enfrentei os agressores. encolhi-me e em corrida desnfreada ultrapassei este obstáculo entrando de rompante pela porta dentro onde inesperadamente esbarrei na corpolenta dona Laurinda, a governanta, que me amparou nos fortes braços; enfim,
estava salvo.
A governanta pegou na minha mala e levou-me para o interior onde mostrou os futuros aposentos: um quarto de duas camas e um beliche, pertencendo-me naturalmente este último (caloiro não é !).
Logo de seguida o residente mais velho (um primo universitário) acercou-se de mim estendeu-me uma folha de papel A4 dactilografada, e disse telegráficamente: Caloiro, lê isto e comparece dentro de 30 minutos na sala, para uma reunião magna.
Eram os estatutos e as praxes vigentes da nossa Repúblca.
(continua)
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